A relação entre as mulheres e o ciclismo amador se iniciou há muito tempo. Embora esse assunto não seja tão comentado, esta prática contribuiu muito para o poder feminino. Em uma época em que as mulheres não tinham voz, não podiam dirigir e viviam presas a uma série de códigos sociais repressores, a bicicleta foi um fator emancipador.

A bicicleta e a conquista do poder feminino

Diferente dos costumes da época, foi a bicicleta quem deu à mulher a possibilidade de deslocamento, contribuindo para a sua liberdade. Se antes eram dependentes dos homens para seu deslocamento, com esse meio de transporte, ela deu os primeiros passos rumo à independência. 

Além disso, para permitir a movimentação mais adequada, as roupas tradicionais das mulheres tiveram que ser trocadas por peças de vestuário mais funcionais,  menos volumosas e formais. Essa adaptação foi um dos fatores que iniciou uma verdadeira revolução em relação às condições vividas pela mulher.

A princípio acusada de fazer mal às mulheres, podendo causar esterilidade, ou de promover a indecência por friccionar as partes íntimas, o fato é que o uso da bicicleta foi uma das ferramentas do movimento feminista.

A figura da New Woman – a mulher idealista e independente, que se envolvia ativamente na contestação dos papéis tradicionais e reivindicava a igualdade de direitos – ficou inevitavelmente associada à imagem da bicicleta.

Mas, depois de tantas conquistas juntas, como anda a relação das mulheres com a bicicleta nos dias atuais? 

Minoria crescente

Sim, o subtítulo parece contraditório, mas ele resume bem a situação das mulheres e sua relação com a bicicleta.

Estudos realizados ao longo do tempo mostraram uma consistência no percentual de mulheres que utilizam a bicicleta como meio de transporte. Na média nacional, esse percentual se manteve constante em 7% ao longo de anos — uma proporção muito baixa. 

Porém, apesar desses dados tímidos, à medida em que as condições para a prática do ciclismo são melhoradas, as mulheres respondem a essas intervenções com entusiasmo. 

Levantamentos feitos recentemente na cidade de São Paulo pela Ciclocidade, mostram que a adesão a esse meio de transporte subiu de 6% em 2015 para 14% em 2016. Ou seja, em um curto período, a proporção mais que dobrou.

Mais do que demonstrar um grande avanço, esses números apontam para uma esperança. Afinal, com incentivo adequado e medidas para tornar a prática mais segura, é possível levar uma boa parte das mulheres a aderirem a esse meio de transporte que causa benefícios à saúde, apresenta soluções para a mobilidade urbana e contribui para  a preservação do meio ambiente. 

Opção consciente 

E quem pensa que essas mulheres pedalam apenas porque não têm outras opções para transporte, está bastante enganado. 52% das ciclistas entrevistadas declararam que possuem um carro, mas ainda assim decidiram utilizar a bicicleta como meio principal de transporte. 

Logicamente, existem mulheres que aderem ao ciclismo por falta de alternativa, e elas estão entre as que utilizam esse meio de transporte mais vezes por semana. Elas também compõem o grupo que possui a renda mais baixa, e possivelmente por isso optam por um meio de transporte sem custo. 

Função utilitária

Quem gosta de pedalar sabe o quanto a atividade é prazerosa e produz bem estar. Porém, para a surpresa dos pesquisadores, a maioria das mulheres não utiliza a bicicleta simplesmente como opção de lazer. Este foi o caso de apenas 23% das entrevistadas.

Se no passado as mulheres utilizaram a bicicleta para adquirir independência e alcançar o ideal de poder feminino, hoje elas também a utilizam para a realização das atividades do dia a dia. 

Entre os propósitos mais comuns, estão atividades do dia a dia, como o trabalho, citado por 28% das entrevistadas, e o deslocamento até o supermercado, mencionado por 23% das participantes. Mais da metade delas pedala entre cinco e sete dias por semana. 

Mas por que as mulheres não pedalam mais? 

Para obter esta resposta, foram entrevistadas também mulheres que não costumam utilizar a bicicleta como meio de transporte e, neste caso, os resultados não são exatamente surpreendentes.

Entre os obstáculos que impedem as mulheres de começarem a pedalar, estão o medo de ser atropelada, o temor de colisões, e os flagrantes de falta de respeito no trânsito. Definitivamente, o compartilhamento de vias ainda é um problema que precisa ser resolvido. 

Tão importante quanto a disponibilização de uma infraestrutura adequada, é a conscientização de todos os envolvidos no trânsito, de que os direitos precisam ser respeitados e a segurança precisa ser valorizada.

Em determinadas regiões, apesar de ciclovias pavimentadas e sinalizadas, é comum motoqueiros invadirem as ciclofaixas, provocando riscos aos ciclistas e inibindo a adesão de outros a essa possibilidade de transporte. 

Perspectivas interessantes

Porém, experiências bem sucedidas implantadas em outras cidades ao redor do mundo mostram que, existe sim, esperança para aumentar gradualmente o percentual de mulheres ciclistas pelas ruas dos grandes centros.

Embora ainda sejam a minoria em Washington, as mulheres correspondem a quase 26% dos ciclistas daquela cidade, e existem inclusive programas específicos para aumentar essa participação.

A principal ação do projeto Women & Bicycles é o encorajamento entre pares, entre iguais. Informação e experiência inspiram mulheres a experimentarem o ciclismo, participar, ensinar, e até mesmo liderar o movimento. 

O programa, lançado em 2013, já captou centenas de apoiadores através da região. Eles realizam uma série de eventos, nos quais já conseguiram engajar mais de 3000 participantes e inspirar mais de 400 mulheres a fazerem da bicicleta parte de suas vidas. 

Entre os eventos, são realizados workshops, corridas, clubes e programas de mentoria. Além disso, eles disponibilizam materiais através da internet e interagem através de fóruns em redes sociais, boletins e divulgação de calendários.  

Assim, forma-se uma rede de informação e apoio que resulta em um maior engajamento das mulheres na utilização e promoção deste meio de transporte. 

Finalmente, é unânime a certeza de que o uso da bicicleta é benéfico para a saúde dos usuários e solucionaria muitos problemas da mobilidade urbana. Para expandir sua adesão entre as mulheres, precisaríamos de um trânsito mais justo e mais humano – o que beneficiaria cada um dos cidadãos. 

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